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Cientista brasileira Tatiana Sampaio leva esperança à medicina com a polilaminina: proteína brasileira que faz tetraplégicos voltarem a andar entra em fase crucial de testes

Publicada em: 19/02/2026 17:45 -

Tatiana Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular da UFRJ e responsável pela polilaminina, medicamento experimental com potencial de recuperar lesões medulares. 


Após quase 30 anos de pesquisa na universidade pública, a polilaminina, desenvolvida pela bióloga Tatiana Coelho Sampaio, da UFRJ, inicia oficialmente os testes em humanos autorizados pela Anvisa, reacendendo a esperança de milhões de pessoas com lesões medulares no Brasil e no mundo.


Em um país onde a ciência enfrenta constantes desafios de financiamento e reconhecimento, uma descoberta feita nos laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) promete colocar o Brasil no centro do mapa da medicina regenerativa mundial. A bióloga e professora Tatiana Coelho de Sampaio, de 59 anos, é a mente por trás da polilaminina, uma proteína inovadora capaz de reconstruir conexões nervosas e devolver movimentos a pacientes com lesões na medula espinhal .

 

O que antes parecia um sonho distante para os cerca de 10 a 13 mil brasileiros que sofrem lesões medulares por ano, segundo estimativas médicas, agora ganha contornos de realidade. Resultados preliminares e animadores já mostraram que, em aplicações experimentais, seis de oito pacientes (75%) com paraplegia e tetraplegia recuperaram movimentos após o tratamento, um número que supera em muito os 15% de recuperação espontânea observados pela medicina .

 

Da placenta ao laboratório: o que é a polilaminina?

 

A polilaminina é uma versão polimerizada e desenvolvida em laboratório da laminina, uma proteína produzida naturalmente pelo corpo humano e abundante na placenta, fundamental durante a formação embrionária e para a organização dos tecidos . Com o passar dos anos, a produção dessa proteína se torna escassa, dificultando a regeneração natural de tecidos complexos como a medula.

 

A inovação da pesquisadora da UFRJ foi criar uma estrutura que funciona como um "andaime biológico" ou uma ponte. Aplicada diretamente no local da lesão, a polilaminina recria um ambiente favorável para que os axônios — fibras nervosas responsáveis pela transmissão de impulsos entre o cérebro e o corpo — possam se reconectar após danos severos . Em termos simples, a proteína "rejuvenesce" as células nervosas, orientando o crescimento de novas conexões e restaurando a comunicação neural perdida na lesão.

 

Uma vida dedicada à ciência

 

Carioca e formada integralmente na UFRJ (da graduação ao doutorado), Tatiana Sampaio construiu sua carreira longe dos holofotes. Chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, ela estuda o potencial da laminina desde os anos 1990, com estágios de pós-doutorado nos Estados Unidos e na Alemanha .

 

A repercussão nacional só veio em meados de 2025, quando os resultados promissores da pesquisa vieram a público. "Não tenho mais o direito de ser conservadora. Então, nesse momento, tenho que me arriscar", afirmou Tatiana em entrevistas, justificando a decisão de dar visibilidade à descoberta para angariar forças e investimentos . O trabalho, que já teve a patente internacional perdida devido a cortes de verbas, mas gerou o maior valor em royalties da história da UFRJ (R$ 3 milhões), é hoje visto como um símbolo da resiliência da ciência pública brasileira .

 

Como funciona o tratamento e a fase atual

 

A polilaminina é extraída de placentas doadas e processada para se tornar um medicamento. Diferente do que muitos imaginam, o tratamento não é uma pílula milagrosa. Ele é aplicado diretamente na medula do paciente durante uma cirurgia, em até 48 ou 72 horas após o acidente que causou a lesão . Após a aplicação, o paciente precisa passar por um rigoroso processo de fisioterapia para que os neurônios em regeneração sejam "instruídos" a se reconectar da forma correta.

 

Em janeiro de 2026, a pesquisa deu um passo oficial e decisivo. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da Fase 1 dos estudos clínicos .

 

· Fase 1: O objetivo principal agora é testar a segurança do medicamento. Cinco voluntários com lesões completas na região torácica da medula receberão a aplicação e serão acompanhados de perto por equipes do Hospital das Clínicas da USP, Santa Casa de São Paulo e AACD .

· Próximas etapas: Se a segurança for comprovada, a pesquisa avançará para as Fases 2 e 3, onde a eficácia será testada em grupos maiores. Esse processo pode levar alguns anos .

 

Desafios, esperança e o futuro

 

Apesar do entusiasmo da população, que já mobiliza campanhas nas redes sociais para indicar Tatiana Sampaio ao Prêmio Nobel de Medicina, a comunidade científica pede cautela. Os dados existentes ainda não passaram pela revisão por pares em larga escala, e a ausência de testes controlados com placebo na fase experimental não permite garantir que as melhoras vieram exclusivamente do remédio .

 

Mesmo assim, o potencial é inegável. Em meio à discussão, a pesquisadora tem sido convidada para eventos por todo o país e será ouvida em uma audiência pública no Senado para discutir os entraves regulatórios e o financiamento da pesquisa nacional .

 

"Valorizar a professora Tatiana Sampaio é mais do que aplaudir uma pesquisadora brilhante. É defender a universidade pública, a ciência brasileira e a esperança de milhões de pessoas", destacou um artigo em apoio à cientista .

 

Se confirmada em estudos mais amplos, a polilaminina poderá redefinir o tratamento da paralisia no mundo, provando que a ciência de ponta também se faz com verbas públicas e determinação brasileira.

FONTE: Kadoshwr 

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